O que “O poder do hábito” me ensinou sobre o surgimento de cada “Hey Ya!” (ou cada hit ou hino)

Este post é baseado na minha leitura de O poder do hábito e, portanto, pode ser entendido como um spoiler de uma das dezenas de histórias reais contadas no livro. Ainda assim, eu recomendo que você continue :)

o poder do habito

Ao final de 2017, aproveitando a Black Friday, eu finalmente comprei um kindle. E uma das minhas primeiras leituras nesse aparelhinho moderno foi O poder do hábito, que parece ter ganhado as estantes brasileiras nos últimos 18 meses (estimativa data eu), mas que já não é lá um livro tão novo assim.

O poder do hábito, de Charles Duhigg, foi publicado pela primeira vez em 2012. Seu objetivo, além do óbvio de mostrar como os hábitos têm poder em nossas vidas, é ensinar como eles funcionam, como podem ser mudados e como podem ser usados com diferentes propósitos.

Para isso, o livro conta histórias sobre diferentes hábitos em diferentes esferas. E uma dessas histórias está relacionada ao nosso hábito de ouvir música (das rádios, olha só!) e de “determinar” quais dessas músicas se tornam hits.

A ideia que acredito ser a primeira e mais lógica a surgir à mente, num contexto de rádio, é de que a música que fornece um incentivo (dinheiro) maior para ser tocada, combinada com os dados de audiência positiva é aquela que vira hit.

Mas não é só isso. O livro conta que, à época do lançamento de Hey Ya!, do Outkast, empresas já se baseavam na coleta de dados (big data says hello) para identificar preferências e hábitos de consumo.

E então um programa de computador indicou que Hey Ya! tinha tudo para ser um baita hit. Diz pra mim, com a vantagem de já ter visto o fenômeno que a música se tornou, você discordaria desse programa?

 

A questão é que isso não aconteceu! Não de imediato e não sem que houvesse uma estratégia que extrapolasse aquele referido incentivo de distribuição.

Acontece que o programa de coleta e análise de dados, aparentemente, conseguia prever hábitos que as pessoas ainda não tinham criado. Assim, a música até tinha o que precisava para se tornar hit, mas os ouvintes ainda não sabiam reconhecer isso.

Os estudos indicaram que o cérebro humano gosta do som que lhe parece familiar, se identifica com ele. E isso o que explica porque praticamente ninguém passa ileso pelas músicas chiclete — elas seguem a mesma receita e, de tanto ouvi-las por vontade própria ou não, o cérebro identifica como familiar e prende aquilo na cabeça da gente.

(É isso o que explica também porque se aventurar pelos “artistas relacionados”, do Spotify, pode ser uma aventura suficientemente segura para a descoberta de novos sons).

A questão é que, apesar de todo o seu potencial indicado pelo software, Hey Ya! soava diferente de tudo o que era familiar à época. A saber, músicas como Here without you, do 3 Doors Down, Like I Love You, de Justin Timberlake e Baby Boy, da Beyoncé.

A estratégia, então, foi colocar a música interpretada por Andre 3000 e cia entre hits já consagrados ao longo da programação musical.

andre 3000

Assim, gradativamente, o cérebro dos ouvintes passou a identificar a música como familiar, transformando-a num hit poderoso o bastante para que membros da indústria passassem a procurar pelo “próximo Hey Ya!“.

Atualmente, muita gente já trocou as rádios pelo serviço de streaming. A saber, uma pesquisa de 2016 indicava que 89% dos brasileiros escutam rádio e, desses, 94% usam o meio para ouvir música. Pulando para o digital, outro estudo aponta que a música também é o conteúdo mais consumido por quem opta pelas rádios web.

Eu, que praticamente só descubro música nova por causa do Yellow, mal passo perto de ouvir, em primeira mão (?), o nascimento de qualquer hit internacional ou made in Brazil.

Porém, ao ler tudo isso, não pude deixar de pensar em como os hits que vão do sertanejo universitário, passam pelo pop e chegam ao funk se sustentam justamente no fato de soarem “tudo a mesma coisa”.

E, ainda assim, é um hino atrás do outro! Se tem como quebrar esse ciclo? Bom, pelo que o livro indica sobre O poder do hábito e da mudança de hábito, sim. Inclusive, foi assim que Hey Ya! ganhou o mundo.

Mas, vale lembrar, os tempos eram outros. Ainda que mais pessoas do que eu e você pudéssemos imaginar ainda consumam música através das rádios, a internet com o Youtubeos serviços de streaming e outras plataformas tornou muito maior o desafio de atingir “em massa” e fazer com que todo mundo escute a mesma música.

Eu realmente gostaria de ver alguém emplacando um hit que nada soa como os hits atuais. E não digo isso porque esses não fazem meu estilo, mas por curiosidade de saber como isso seria feito!

Chegou até aqui e viu que, apesar de compartilhar informações de um dos vários casos apresentados no livro, valeu a pena conferir o post? Quer saber mais sobre O poder do hábito? Então vale conferir a resenha ilustrada feita pelo pessoal do Leia um Livro! Fica a dica :)

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21 comentários sobre “O que “O poder do hábito” me ensinou sobre o surgimento de cada “Hey Ya!” (ou cada hit ou hino)

    1. É bem possível que existam outras explicações, outros estudos! Mas achei esse relacionado aos hábitos muito interessante. O livro mostra como empresas conseguem manipular os nossos hábitos de consumo ou simplesmente se aproveitar deles para vender mais… E isso me fez pensar em quanto nossa participação na transformação de uma música em hit é (ou, ao menos, era) muito maior do que eu imaginava!

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  1. De vez em quando me dá vontade de conhecer músicas novas e eu sempre ligo o rádio esquecido do meu celular. Sempre foi assim, confiando no rádio pra isso. É meio louco pensar que talvez eu tenha feito parte do processo de criação (?) de um hit, e talvez ter feito parte do da própria hey ya (ou talvez não e só ter feito parte disso quando o clipe lançou pq que clipe maravilhoso haha).

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    1. Nem sei há quanto tempo eu já não ligo o rádio em busca de música nova… Tento fazer isso pelo Spotify mesmo, às vezes pelo youtube. Mas realmente é bem interessante pensar como a gente participa da criação de um hit!

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  2. Aí está uma novidade interessante! Eu tinha 12 anos na época e achava Hey Ya insuportável hahahaha Mas faz bastante sentido, pois já percebi o fenômeno do hábito me acometer em CDs… Lembro bem de, ao comprar um cd, não gostar de todas as músicas e, depois de algum tempo, gostar de todas. Eu também já reparei que tendo a gostar de várias músicas que têm arranjos similares… Enfim… Esses dias mesmo assisti um vídeo bastante interessante que comparava 6 sucessos da música country que são tão semelhantes que você praticamente pode sobrepô-los sem perceber que são músicas diferentes rs

    Estava com saudades de comentar aqui! Linda semana! Beijos!

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    1. Essa questão que você mencionou das músicas no CD funciona como acompanhar a playlist de um DJ na rádio. Você pode pular a música ou trocar de estação, mas às vezes acaba ficando, ouvindo e se acostumando. Atualmente, acho que as facilidades da internet deixam esse processo mais difícil. Depois de escrever o post, fiquei pensando em como a opinião das outras pessoas ajuda as músicas a virarem hit hoje. É só pensar em quantos fãs já cravam que uma música é “hino” e ainda admitem que nem ouviram rs.

      Boa semana :)

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      1. Concordo plenamente, Lari! Mas confesso que acho MUITO bizarro alguém chamar uma música de “hino” sem conhecê-la, apenas por ser fã… Aliás, não só acho bizarro como também pobre de espírito hahaha Acho que com o streaming, a tendência é que um indivíduo escute cada vez mais músicas similares entre si, o que eu particularmente, acho ruim. Hoje em dia, parece-me mais fácil encontrar músicas nitidamente distintas umas das outras em um mesmo álbum que em playlists temáticas rs

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        1. Eu também não entendo muito isso dos fãs já cravarem que qualquer lançamento é hino, só porque é do artista favorito. É claro que a gente quer que nossos artistas favoritos sempre lancem as melhores músicas, mas acho que não consigo chegar perto o bastante dessa geração para entender, rs

          E sim, álbuns ainda são mais equilibrados do que playlists… E o streaming realmente direciona a gente para aquilo que nosso cérebro já sabe que gosta de ouvir!

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  3. Hoje em dia eu não consigo ver um mundo sem o hit “Hey Ya!”. Esse post é uma das coisas mais maravilhosas que li em 2018 ♥ Eu não tenho o hábito de ouvir músicas, porém quando deixo o spotify no shuffle confesso que muita música me desagrada ao ponto de não querer ouvir mais nada! É a questão do hábito de ouvir algo diferente e fora da zona de conforto. Espero mudar e dar chances para hinos que para mim são quase inaudíveis, kkk.
    Beijos

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    1. Eu sei que 2018 está só começando e que você ainda vai ler muita coisa maravilhosa, mas adorei saber que o post foi tão bem recebido! Sobre dar chances a certos hinos, acho válido tentar, mas sem qualquer pressão. Essa familiaridade que o cérebro da gente busca é um dos motivos pelos quais é difícil recomendar músicas num blog (hello!). Muita gente gosta dos posts, mas nem sempre tem disposição para ouvir algo que não se pareça com algo já conhecido. Em meio a esse reflexão nos anos escrevendo sobre música, eu percebi que tem muita coisa a ser explorada dentro daquilo o que uma pessoa já gosta. Então, se não der pra ser abrir para os hinos, dá para achar muuita coisa legal sem ter que passar por qualquer “desconforto” :)

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  4. Finalmente consegui ler e tirar um tempo pra comentar esse texto.
    A parte da “manipulação psicológica” na formação de um hit é fascinante. Mas tem um ponto específico sobre Hey Ya que eu queria adicionar. Percebi isso uns 2 anos atrás, quando eu por algum motivo decidi revisitar Outkast:
    Hey Ya é uma sátira. O fato de ter se tornado um hit nos EUA é bem surpreendente. Aqui nem tanto, porque a diferença de idioma já tira o foco da letra pra maior parte das pessoas. Se você der uma olhada na letra, é uma canção feliz e dançante sobre um relacionamento chegando ao fim. Nada muito profundo, claro, mas é bem engraçado ver a forma como a letra não bate com o ritmo. Inclusive, tem uma parte antes do refrão em que eles apontam pra esse detalhe: “you don’t wanna hear me, you just wanna dance”. Isso pra mim foi a parte mais interessante desse hit, e trouxe um pouco de substância pra banda também, que tem umas músicas boas.

    Agora uma pergunta que talvez alimente uma continuação do tema pra você: você acha que o hit anda mais passageiro (talvez por ter perdido um pouco da importância na mídia contemporânea) e o artista menos? Eu ando notando isso porque gente como Justin Bieber, Anitta, Luan Santana, entre outros, já deviam ter desaparecido a essa altura (e não acho que eles permanecem por terem mudado ou se tornado artistas “sérios”). A popularidade deles flutua, mas eu tenho a impressão que eles tão em cena já há anos e sempre com algum hit novo, mas o hit dura uma ou duas semanas na cabeça do povo. Não sei, o que você acha?

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    1. Se não me engano, nos tempos de MTV eu até acompanhava a música com a letra, mas nunca refleti a respeito, rs

      Eu acho que os hits estão mais passageiros sim. Tento não dizer isso em tom de crítica para não ser chata, mas é como se todos tivessem encontrado a fórmula para fazer hits e agora isso não vale mais nada. Se um artista ainda dependesse de um som de sustância para se manter, talvez muitos artistas não teriam permanecido até agora. O interessante é ver que esse tempo de carreira está fazendo com que mts amadureçam musicalmente e é isso o que eu tiro de positivo!

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